terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Superedifícios residenciais vêm mudando o skyline de algumas cidades do País

Por Revista téchne

Projetos devem contemplar importantes aspectos de engenharia, como segurança, conforto e economia

Por: Giovanny Gerolla
Edição 237 - Dezembro/2016
 
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Vista da orla do Balneário de Camboriú, em Santa Catarina. O edifício mais alto é o Epic Tower, com 188 metros de altura
Eles têm arranhado os céus de cidades brasileiras como Balneário Camboriú (SC), João Pessoa (PB), São Paulo (SP) e Goiânia (GO), com seus 40, 50, 75 ou até mais pavimentos. São edifícios comerciais e residenciais de altíssimo padrão - um desafio técnico do ponto de vista da segurança estrutural e do conforto no uso -, construídos para atender à demanda de um público exigente, de perfil econômico muito visado pelo mercado da construção civil.
Em Balneário Camboriú (SC) estão pelo menos sete dos dez edifícios mais altos do Brasil e possivelmente da América do Sul. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil daquela cidade (Sinduscon-BC), engenheiro Carlos Haacke, umas das justificativas para a expansão desse tipo de empreendimento é o reduzido espaço físico do município. "Nosso território tem aproximadamente 54 km², dos quais mais de 80% estão em áreas de Mata Atlântica e praias agrestes; temos apenas 7 km de praia urbana", calcula. Desta perspectiva, a verticalização é uma necessidade para a vida na curta faixa litorânea.
A legislação da cidade também não é uma barreira. "O plano diretor tem gabarito livre. É o tamanho dos terrenos o que nos permite subir prédios mais ou menos altos", diz Haacke. E de frente para o mar, os empreendimentos mostram-se rentáveis. Para Altevir Baron, diretor comercial da incorporadora e construtora FG Empreendimentos, uma das maiores em Balneário Camboriú, a região é promissora, com metro quadrado valorizado, vocação forte para o turismo e muita qualidade de vida para seus moradores, num cenário mais que privilegiado.
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Fachada do Millennium Palace, no Balneário de Camboriu, com 184 metros de altura
Situação semelhante acontece em Goiânia, onde a legislação local - zoneamento e plano diretor - não limita a altura máxima dos edifícios, desde que obedecidos recuos laterais e demais parâmetros de uso do solo, conforme explica o engenheiro Paulo Silas, sócio da SIM Engenharia e Empreendimentos. E compradores para esses imóveis não faltam. Segundo ele, "a cidade de Goiânia tem clientes para prédios de uma unidade por andar, que pagam quase todo o montante até a entrega das chaves - isso viabiliza o fluxo de caixa para cobrir os custos financeiros dessas obras". Seu sócio, o engenheiro Ricardo Maciel, acrescenta: "Nossos clientes são empresários do agronegócio, profissionais liberais, industriais e comerciantes".
Projeto impecável Empreendimentos altos como os de Balneário Camboriú e Goiânia refletem projetos que buscam aliar confiabilidade e economia. A segurança de usuários e de edifícios vizinhos exige a realização de uma variedade de ensaios, como sondagens, túnel de vento e análise dinâmica de estruturas, laudos de vizinhança e de verticalidade, controles de recalque e ensaios de concreto, como o ensaio de integridade PIT (não destrutivo), revestimentos de fachada, estanqueidade e provas de carga estática. Não faz diferença se o terreno é litorâneo ou não. "Na praia, as fundações terão de atingir um ponto firme, além da proporção geral válida para qualquer tipo de obra: quanto mais alto o projeto, mais profunda será a fundação", explica Haacke. "Os estaqueamentos podem chegar a 25 m ou bem mais", afirma. Já a ação da maresia sobre materiais leva a soluções mais robustas, como é o caso da maior espessura de cobrimento das armaduras.
É o que confirma Stéphane Domeneghini, engenheira de projetos da FG. Ela releva que, por se tratar de terrenos litorâneos, cálculos e detalhes de execução estrutural devem seguir as prerrogativas para classe de agressividade III, constantes da ABNT NBR 6118 - Projeto de Estruturas de Concreto - Procedimento. "A norma solicita, nesses casos, cobrimentos mais espessos de concreto sobre o aço de pilares, vigas e lajes", afirma. Na classe III, cobrimentos das armaduras devem ter 35 mm de espessura em lajes de concreto armado, e 40 mm de espessura, no mínimo, em pilares e vigas.
No Millennium Palace, residencial de 36 apartamentos (um por andar) e 184 m de altura, a FG utilizou 8.235 m³ de concreto; já no Epic Tower, também em Balneário Camboriú (188 m de altura), o volume de concreto ultrapassou os 24.500 m³, somadas infra e superestrutura.
Não só a altura, mas a esbeltez do edifício também determina seu grau de deslocamento com a ação dos ventos e aponta para uma especificação de soluções construtivas que não causem náuseas aos ocupantes. "Tudo deve ser resolvido na fase de projeto, em função dos ventos, que são as cargas protagonistas em edifícios muito altos", lembra a engenheira.
Haacke afirma que, para esse tipo de empreendimento, é necessário contratar até duas consultorias de cálculo estrutural, além do calculista contratado para projetar - e consultores especializados em todos os outros sistemas que comporão o edifício. A ideia é passar um pente fino em tudo e ter certeza de que o investimento será seguro.
"A contratação de consultorias foi inserida na NBR 6118 com a reforma de 2014, de forma clara e precisa, e desde então temos buscado seguir este padrão. No caso do Millennium Palace, concebido muito antes desta reforma, seguimos ainda o procedimento convencional que adotávamos, com um engenheiro realizando os cálculos. No Epic Tower, dois escritórios de cálculo forneceram avaliações sobre a resolução da estrutura", compara Domeneghini. Além disso, o engenheiro Sérgio Stolovas realizou estudos sobre a dinâmica estrutural do Epic, com apoio do engenheiro britânico Gordon Breeze, do laboratório, também britânico, BRE (Building Research Establishment).
Sistemas de prevenção contra incêndio, transporte vertical (elevadores), abastecimento hidráulico, alimentação elétrica, climatização, automação e esquadrias devem ser compatibilizados, já que não existe margem propara correções depois de terminada a execução (veja tabela acima).
Sondagens e fundações Na construção de edifícios com grandes concentrações de cargas, a investigação de características geológico-geotécnicas do terreno é ainda mais importante. "Um plano de diferentes técnicas e ensaios será conduzido para subsidiar o projeto com parâmetros de resistência e deformabilidade que permitam a análise cuidadosa do comportamento dos solos e da interação solo-estrutura", justifica Gisleine Coelho de Campos, pesquisadora da Seção de Geotecnia do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT).
Divulgação IPT
Interação solo x estrutura em modelo 3D da Epic Tower
A sondagem SPT, ferramenta comum no Brasil, pode ser realizada em qualquer tipo de terreno, embora o ensaio seja insuficiente para solos de argila mole. "Também não se aplica a rochas ou solos de alteração de elevada resistência", alerta a pesquisadora. Complementarmente, um Vane Test, ensaio específico que determina a resistência de argilas pouco consistentes por meio da rotação de uma palheta no interior do maciço, ou o CPT, para resistências de ponta e atrito lateral por meio da cravação estática de um cone, poderão ser realizados. Vane Test e CPT, no entanto, não fornecem amostras deformadas do solo. "Questões logísticas do empreendimento - localização, condições de acesso e situação de edifícios vizinhos - também impactarão na definição do método empregado." Em terrenos de menor capacidade de suporte, soluções de engenharia de fundações tendem a ser mais onerosas, pois demandam equipes e equipamentos especializados (que perfuram profundidades superiores a 60 m), além de maiores prazos para a execução.
Muito embora os terrenos sejam arenosos, o fato de Balneário Camboriú ter área total reduzida facilita o mapeamento do comportamento geotécnico de toda a cidade. "Utilizamos invariavelmente sondagens SPT e CPT em nossas obras", enumera Domeneghini. "A sondagem SPT acontece numa fase anterior ao projeto, para análise de viabilidade do empreendimento; depois, durante o desenvolvimento do projeto, fazemos o CPT, para termos maior exatidão do tipo de solo e profundidade das camadas - especialmente na região da torre, onde as solicitações serão maiores", justifica.
Exemplo de edificação submetida aos testes de túnel de vento. A simulação testa uma torre única de 52 pavimentos, com 175 m de altura
Conhecer os tipos de solos e a profundidade de rochas numa determinada superfície não isentará o empreendedor de ter de realizar sondagens e análises verticais de vários cenários possíveis, quando cargas são tão grandes. Tanto no Millennium quanto no Epic, estudos apontaram para o uso da estaca hélice contínua - diâmetro 60 cm no primeiro, e 80 cm no segundo. Outras soluções possíveis são os estacões e estacas barretes, mas pode ser também necessário tratar o solo previamente, com camada de material granular (rachão e pedregulhos), ou com material geossintético, que melhor redistribui tensões, para o tráfego dos equipamentos mais pesados.
Se houver movimentos de corte e aterro, esse tratamento oferece estabilidade às escavações. "O uso de tubulões a ar comprimido vem diminuindo em função dos riscos à saúde dos operários", diz a pesquisadora do IPT.
Concepção de um bloco único, conhecido na literatura técnica por piled raft - grande bloco com estacas. "Chamamos coloquialmente de bloco da torre, o que vem sendo aplicado por aqui há décadas - é o caso do Millennium e do Epic", conta.
O Kingdom Park Residence, em Goiânia (GO), da SIM Engenharia e Empreendimentos, também tem em sua fundação com estacas hélice contínua (Ø50 e Ø60). São 433 estacas submetidas a esforços elevados de tração que receberam, em suas armaduras, tirantes monobarra INCO60D e INCO90D. A solução apresenta radiers estaqueados - um bloco principal fica apoiado sobre 195 estacas de 60 cm de diâmetro e até 22,6 m de profundidade cada.
Simulação do impacto horizontal de ação do vento
Túnel de vento Edificações altas e esbeltas devem passar por testes em túnel de vento", lembra Gilder Nader, pesquisador do Laboratório de Vazão do IPT, referenciando- se no CTBUH (Council on Tall Building and Urban Habitat). O órgão publicou o documento técnico Wind Tunnel Testing of High-Rise Building, que trata de edifícios com mais de 120 m de altura; prédios de altura pelo menos quatro vezes maior que sua menor largura, e casos em que houver frequência natural de vibração menor que 0,25 Hz (período de 4 segundos).
Os principais motivos de preocupação são a segurança e o conforto humanos, devido às vibrações sob a ação dos ventos, e a determinação das cargas estáticas e dinâmicas na estrutura, revestimentos e caixilharias. Assim, o teste também garante que o construtor não gaste além do necessário. "Atualmente, no Brasil, todo empreendimento para alturas além de 170 m tem sido submetido a ensaios em túnel de vento; a questão é de segurança no desenvolvimento do projeto. A baixa rigidez é inerente a tais edificações e, com isso, a frequência de vibração, do modo fundamental, fica na faixa de 0,12 Hz", explica Nader. Ele afirma que edifícios de 120 m já têm apresentado frequência de vibração do modo fundamental de 0,14 Hz, o que é insatisfatório. O melhor seria que a partir de 120 m, todos fossem ensaiados.
Para o professor Acir Mércio Loredo- Souza, do Laboratório de Aerodinâmica das Construções da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a necessidade de fazer ensaios de túnel de vento é maior para edifícios de arquitetura fora do padrão, porque "não existe norma no mundo que contemple todas as formas arquitetônicas". A interação com prédios vizinhos, em cada caso, também será sempre uma incógnita a decifrar, antes de desenvolver o projeto - daí a importância de identificar forças que se desenvolvem transversalmente à incidência do vento, e forças torcionais, de diferentes amplitudes, gerando diversos deslocamentos possíveis. "Modelos analíticos são válidos para edificações mais simples, convencionais. Uma vez identificadas as forças atuantes, o calculista busca soluções para resistir aos carregamentos (estrutura) e diminuir os movimentos (conforto)", diz.
Apesar de termos no Brasil laboratórios conceituados, a FG opta por realizar seus ensaios de túnel de vento no BRE, da Inglaterra. Para os projetos do Millennium Palace e do Epic Tower, o laboratório recebeu todos os dados, inclusive informações sobre o entorno do futuro edifício. "Isso possibilita uma impressão do empreendimento e da área ao redor dele, para então realizar os ensaios. São inseridos diversos sensores no modelo (maquete), a fim de mapear as pressões em toda sua extensão", conta Domeneghini. O laboratório transforma os valores obtidos em medidas aplicáveis ao projeto estrutural e de esquadrias: "Como resultado, temos um relatório muito denso com planilhas de valores de pressões sobre toda a fachada, a partir de diversos ângulos, além da análise desses resultados, com destaque para pontos críticos a que o projeto estrutural deverá atentar".
A simulação no laboratório deve ter qualidade, mas não só. "A equipe que trabalha no túnel também precisa estar muito qualificada para analisar os dados obtidos, o que se verifica a partir de sua formação e inserção internacional no meio científico", aponta o professor da UFRGS.
Para Domeneghini, é essencial que todo o ensaio seja acompanhado por um especialista em dinâmica de estruturas que compreenda profundamente a complexidade de resultados gerados a partir dos dados do laboratório. Quanto maior a complexidade do empreendimento, maior será a necessidade de realizar dois ensaios de túnel de vento: um na concepção do projeto de arquitetura, e outro na do projeto estrutural. Não foi o que aconteceu no Millennium nem no Epic, que a FG considera de "complexidade mediana". "Neles, dados foram transformados em cargas estáticas equivalentes que nos auxiliaram a dimensionar a estrutura segundo as cargas horizontais, de maior influência."

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Modelo em escala do Epic Tower - em vermelho, no centro da imagem - submetido à simulação de túnel de vento
Nenhum dos dois projetos da FG precisou adotar soluções atípicas, como contraventamentos. Para Domeneghini, a realização dos ensaios é condição sine qua non para chegar aos resultados de forma o mais simples possível, com máxima segurança: "Nos dois empreendimentos temos um núcleo rígido, em que as próprias caixas de elevador e escadarias formam um maciço de concreto - principal elemento de travamento das estruturas".
O ensaio em túnel de vento pode oferecer informações importantes também para orientar a instalação de outros equipamentos no edifício, como helipontos, por exemplo. Para o engenheiro estrutural Leonardo M. Caetano, da Colmeia Consultoria e Projetos, os resultados do ensaio de túnel de vento agregam informações muito mais seguras, por se tratar de valores de esforços mais apropriados à geometria específica da edificação, e não mais sugeridos pelos ábacos da norma. "É possível ainda revisar o dimensionamento das armações, o que traz enorme economia", explica.
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FICHA TÉCNICA
Epic Tower
Localidade: Balneário Camboriú (SC)
Área do terreno: 2.882,41 m²
Área construída: 30.277,55 m²
Incorporação e Construção: FG Empreendimentos
Arquitetura: LDD Engenharia e Arquitetura
Altura do edifício: 188 m
Número de unidades: 49
Tipologia: um (1) apartamento por andar (350 m² cada, em média); área varia em cada pavimento, em função da curvatura da fachada
Túnel de Vento: Building Research Establishment
Análise Dinâmica: STO Engenharia e Consultoria
Projetista estrutural: REICAL Engenharia
Projeto de fundações: REICAL Engenharia
Fundações: União Fundações
Consultoria para dosagem do concreto: Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária - FAPEU
Ensaios de Concreto: LAUDE
Engenharia e Ensaios de Materiais Formas e escoramentos: SH Formas Andaimes e Escoramentos
Monitoramento: DAHER Tecnologia em Engenharia
Volume de concreto: infraestrutura: 12.189 m³
superestrutura: 12.372 m³
Volume de aço: infraestrutura: 856 ton; superestrutura: 1.449 ton
Quantidade, diâmetro e comprimento de estacas: mais de 280 estacas Ø80; 32 cm
Tipologia de laje do embasamento: nervuradas com cubetas
Tipologia de laje da torre: maciça
Projeto Preventivo, Hidrossanitário e Elétrico: Franzmann Engenharia
Projeto de Esquadrias: Crescêncio
Petrucci Consultoria e Engenharia Projeto Climatização: H2W Engenharia
BIM: Canteiro AEC
Elevadores: ThyssenKrupp Elevadores
Aço: ArcelorMittal
Segurança contra incêndioQuanto mais alto o edifício, maior será a preocupação com a segurança em caso de incêndio. A questão, no entanto, fica muito atrelada ao que a legislação local define como o mínimo necessário à aprovação dos projetos - assim, para ser mais seguro, o melhor é seguir a legislação estadual que for mais rigorosa, e ir além, investigando o caso concreto profundamente.
No Brasil, a legislação de São Paulo é a mais detalhista, portanto, dura, segundo informa Antonio Fernando Berto, pesquisador do Laboratório de Segurança ao Fogo e Explosões do IPT, e integrante do CB-24, da ABNT. Ainda assim, para Berto, os parâmetros da legislação paulista são insuficientes. "Pensar no uso é essencial - operação e manutenção, o que pressupõe estudar riscos definidos por grandes alturas. Não basta atender estritamente à regulamentação. A regra é: quanto mais complexo for o risco, mais difícil fica controlá-lo, apenas pela adoção daquilo que vem escrito na norma", afirma.
Cada Estado tem uma lei própria de segurança contra incêndio. Em São Paulo, o Decreto estadual 56.819/2011 traz uma série extensa de tabelas anexadas que tipificam e classificam as edificações quanto a área, altura e uso. Cruzando esses dados, faz indicações para todos os itens de segurança que serão cobrados pelo Corpo de Bombeiros na aprovação do projeto. Classificado o empreendimento segundo o decreto, o projetista vai às instruções normativas do próprio Corpo de Bombeiros do Estado - em São Paulo, a norma 11/2014, que apresenta parâmetros detalhados de projeto, como inclinação de rampas e largura de acessos, o dimensionamento de degraus e exigências para elevadores de emergência.
Em Santa Catarina, a Lei estadual 16.157 não classifica os tipos, nem estipula o que é necessário para cada uso, considerados área, altura ou quaisquer outros critérios. A lei catarinense regulamenta apenas, a grosso modo, os procedimentos burocráticos de aprovação, infrações e multas, e remete às instruções normativas do Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Santa Catarina. Se o assunto for sistemas de saída de emergência, é a instrução normativa IN 009 que deverá ser consultada. Nela estarão detalhes de diversos itens de segurança (escadas, rampas, corrimãos, elevadores etc.), e não por tipo predial ou altura. Caberá ao construtor estudar todos os itens para descobrir, primeiro, quais são aplicáveis ao seu projeto e, depois, analisar se aqueles parâmetros são realmente suficientes.
"O grau de sistematização ou organização das leis, decretos e instruções normativas estaduais aponta para o maior ou menor rigor na aprovação dos projetos", conclui o professor Acir. Escadas pressurizadas por meio do insuflamento de ar limpo com ventiladores potentes (até a saída externa do prédio) e sprinklers são itens normalmente encontrados em edifícios comerciais, e que passam a integrar projetos de segurança dos altos residenciais brasileiros. O transporte vertical, por fim, requer elevadores de alta performance e velocidade, e programação inteligente, para que usuários dos pavimentos superiores não aguardem tanto tempo pelo deslocamento, seja em situações de emergência, seja no uso rotineiro.
Os edifícios em Santa Catarina são projetados em atendimento à legislação local, e tanto o Millennium Palace quanto o Epic Tower têm sistemas de escadas pressurizadas, solução considerada pela FG Empreendimentos a rota de fuga mais segura para usuários em caso de incêndio.
Um corpo técnico, formado pelo Corpo de Bombeiros local, um projetista responsável e a engenharia da construtora, dedica-se a buscar soluções realmente funcionais - e não apenas aquilo que atende aos requisitos mínimos normativos. "Exemplo disso são os detalhes de funcionamento do próprio sistema de pressurização, que não está descrito em pormenores na instrução normativa, mas que o projetista terá de esclarecer quanto à sua disposição, especificação de equipamentos e sistemas complementares de apoio", diz Domeneghini.
O rigor com os cuidados na prevenção de incêndios, informa a engenheira, vai além do desenvolvimento e execução dos projetos da empresa: "Temos um trabalho contínuo de acompanhamento das revisões das instruções normativas, com auxílio dos nossos projetistas e do Sinduscon-BC. Atualmente, discute-se muito sobre manutenção desses equipamentos, dificuldade encontrada pelo próprio Corpo de Bombeiros. Esta cooperação orienta, inclusive, o avanço e melhoria da nossa legislação."
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Kingdom Park Residence, em Goiânia. 175 metros sustentado por estacas hélice contínuas
FICHA TÉCNICA
Kingdom Park Residence
Localidade: Goiânia (GO)
Área do Terreno: 2.134,29 m²
Área Total Construída: 33.077,32 m²
Incorporação e construção: SIM
Engenharia e Empreendimentos Altura do edifício (RN 0,0): 175,09 m
Altura do edifício (subsolo 2): 180,71 m
Pé-Direito (Piso a Piso - Estrutura nos pavimentos-tipo): 3,40 m
Conclusão da obra: fevereiro de 2019
Número de pavimentos: 52 - Subsolos 1 e 2, Térreo, Mez. Garagem, Mez. Lazer, 45 Pavimentos-tipo (482,76 m²), Duplex Inferior, Duplex Superior (793,45 m²)
Tipologia (apartamento-tipo e duplex superior): 5 suítes
Túnel de Vento: IPT-SP
Estudo de Cálculo Térmico: DUX Engenharia
Projeto de Infraestrutura: Engesol Engenharia de Solos
Volume de concreto: infraestrutura: 3.496,65 m³
superestrutura: 9.610,60 m³
Volume de aço: 1.075 ton (infra e superestrutura)
Quantidade, diâmetro e comprimento de estacas: 433 estacas; Ø50 e Ø60; até 27 m
Concreto armado A estrutura reticular de concreto armado é o sistema construtivo predominante nesses grandes edifícios, que tiram proveito do fato de o Brasil possuir uma forte cultura técnica em favor do concreto. E, nesse aspecto, a estrutura moldada in loco também prevalece. "Nos empreendimentos da FG, inclusive no Millennium e no Epic, optamos pela laje plana maciça moldada in loco, que promove a racionalização dos outros sistemas", justifica Domeneghini, da FG.
No Kingdom Park Residence, em Goiânia, a superestrutura também terá vigas, pilares e lajes maciças de concreto armado, e o concreto, em todos os seus 52 pavimentos, uma resistência de 50 MPa. Os efeitos da deformação pela ação dos ventos serão minimizados pela prescrição de um Módulo de Elasticidade de 36 GPa, e os deslocamentos horizontais serão contidos por contraventamento com vigas de concreto em "X", entre pilares, sobre pontos específicos da fachada leste da edificação. A concretagem de blocos de fundação (fundação direta) ou de blocos de coroamento, onde o volume da concretagem é muito grande, pode gerar o superaquecimento do concreto. "O calor gerado durante o processo de concretagem pode ocasionar um diferencial térmico entre o núcleo da peça e as suas partes externas, que por sua vez gerará fissuras no elemento estrutural, comprometendo sua estabilidade e a da estrutura do prédio", explica Valdir Moraes Pereira, pesquisador do Laboratório de Materiais de Construção Civil do IPT. Ele indica a substituição da água de amassamento por gelo ou o uso de cimentos de baixo calor de hidratação (CP-IV) para grandes volumes de concretagem.
Nos projetos da FG, o projeto executivo de concreto é acompanhado por engenheiro especialista - logo, cada projeto é estudado individualmente, para definir como será o processo de concretagem e cura, caso a caso. O traço é elaborado em função dos insumos disponibilizados pela construtora num dado momento, a fim de que o produto final esteja compatível com comportamento e resistência esperados, sem superaquecimentos nem fissuras. "Fazemos testes do traço, usando gelo e cimentos de baixo calor de hidratação, combinados. Avaliamos ainda a logística e o tráfego na região da obra, para possibilitar que as concretagens sejam contínuas, dentro dos horários autorizados pela legislação municipal - a ideia é evitar imprevistos que descaracterizem o resultado almejado."
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Escavação de solo para realização do radier estaqueado.
Para executar os radiers estaqueados (1.585,65 m³ de concreto) do Kingdom Park Residence, a SIM Engenharia e Empreendimentos realizou estudo de cálculo térmico que definiu alturas intermediárias para as camadas da concretagem. Utilizando concreto fck 50 Mpa, o radier principal foi feito em cinco camadas, com intervalos previstos de 72 horas entre uma e outra, e espessuras 25 cm; 42,5 cm; 42,5 cm; 40 cm e 40 cm. Em cada etapa, a temperatura foi monitorada por Termopar.
Ainda para reduzir cargas sobre a superestrutura - e os custos da obra -, a FG Empreendimentos mudou da alvenaria, utilizada para fechamentos internos no Millennium, para o gesso acartonado (drywall), no Epic Tower. "Na implementação do drywall, contratamos consultorias em tipologia e detalhes executivos do sistema, a fim de entregarmos um produto final seguro e confortável", defende Domeneghini.
Após ensaio, projeto estrutural economiza aço1. Primeiro projeto estrutural;
2. Definição da realização de ensaio de túnel de vento, em função da altura máxima do edifício (180 m);
3. Relatório Técnico da consultoria (Colmeia Consultoria e Projetos);
4. Com os resultados do ensaio, novo projeto estrutural desenvolvido, com redimensionamento de armações;
5. Economia de 63,3 toneladas de aço, em comparação ao primeiro projeto de estruturas.
Fachada unitizada 
Segundo a FG, a solução mais segura em edifícios altos é a fachada unitizada, sistema industrializado de módulos prontos com perfis, vidros e outros componentes, mais rápido de executar. "A grande vantagem é logística", opina Domeneghini, "porque podemos iniciar o fechamento dos primeiros pavimentos à medida que executamos a estrutura dos superiores." Assim, reduz o tempo de obra, com conforto térmico e acústico para usuários, em solução mais sustentável, porque gera menos resíduos.
A técnica altera todo o processo de concepção e execução de fachadas, já que requer maior agilidade e planejamento. O projeto do Epic Tower, do engenheiro Crescêncio Petrucci Júnior, exigiu solução customizada e peças exclusivas, por ter fachada curva e painéis instalados junto de grandes pilares-paredes. "Utilizamos janelas maxim-air exclusivas no trecho da curvatura positiva, para solucionar o sistema de vedação e proporcionar a estanqueidade adequada, além de ancoragens especiais, por causa da grande dimensão horizontal dos pilares", explica Domeneghini.
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Instalação de fachada unitizada, que usa sistema de módulos pré-montados com perfis, vidro e demais componentes
A execução sequenciada pavimento por pavimento de um sistema industrializado de fachada foi um dos motivos que levou a FG a optar pelo drywall nos fechamentos internos - sistema que ajuda a manter a integridade de elementos, como o vidro. Também industrializado, não gera tantos resíduos quanto a alvenaria.
Quando comparada ao stick - em que primeiro é necessário montar a caixilharia para depois colar os vidros -, a fachada unitizada é duas vezes mais rápida de instalar, e menos suscetível ao aparecimento de patologias, o que ocorre graças a um maior controle tecnológico dos materiais empregados, produção modular e processos de instalação, que requerem menor interferência humana (preserva a integridade sistêmica).
A ancoragem é aplicada somente sobre a viga de concreto no piso de cada pavimento. Se antes (no stick) a instalação era totalmente feita por fora, o sistema modular possibilita fazê-la por dentro, içando os módulos e encaixando-os à ancoragem. Por outro lado, vidros refletivos encontrados na fachada principal e nas janelas dos cômodos do Epic filtram 99,6% dos raios solares ultravioletas (UV) e atenuam ruídos externos. A formação de umidade entre o fechamento interno e a fachada é evitada pela aplicação de barreiras anticondensação.
Uma última grande vantagem do sistema unitizado é que facilita a manutenção da fachada. Nos empreendimentos da FG e da SIM, por exemplo, são deixados equipamentos de ancoragem que possibilitam a instalação de sistemas para alguma intervenção externa. "Em fachadas argamassadas seria imprescindível detalhar o projeto de revestimentos com materiais e acessórios para inibir o surgimento de fissuras e outras patologias típicas deste sistema", relembra a engenheira da FG.
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FICHA TÉCNICA
Millennium Palace

Localidade: Balneário Camboriú
Área do terreno: 2.075,14 m²
Área construída: 23.850, 32 m²
Incorporação e Construção: FG Empreendimentos
Arquitetura: Veneza Marodin Arquitetura
Altura do edifício: 184 m
Número de unidades: 36
Tipologia: um (1) apartamento por andar (356,41 m² cada); uma (1) piscina por andar
Túnel de Vento: Building Research Establishment
Análise Dinâmica: STO Engenharia e Consultoria
Projetista estrutural: REICAL Engenharia
Projeto de fundações: REICAL Engenharia
Volume de concreto: 8.235 m³
Volume de aço: 1.015 ton
Quantidade, diâmetro e comprimento de estacas: mais de 250; Ø60; 30 m
Tipologia de laje do embasamento: nervuradas com cubetas
Tipologia de laje da torre: mista (nervurada com blocos cerâmicos)
Projeto Preventivo, Hidrossanitário e Elétrico: Franzmann Engenharia
Projeto Climatização: H2W Engenharia
Projeto Automação: Syncrovision Audio Video Automação
Aço: ArcelorMittal
Elevadores: Atlas Schindler
Esquadrias: ALCOA
Iluminação de Emergência e Alarme de Incêndio: ENGESUL

Um comentário:

  1. Excelentes comentários no tópico de Sistemas de Incêndio. Ainda a acrescentar: As edificações precisam ter em seu projeto a distinção entre Acessibilidade e Resgate. Com todas as Normas Técnicas já publicadas sendo seguidas, ainda existe um conceito que precisa ser revisto. Detalhei alguns aspectos em artigo publicado no Linked In, no meu perfil, denominado acessibilidade versus resgate. Vale a pena refletir um pouco sobre isto.

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