terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Cobertura retrátil criada por Gustavo Correia Utrabo e Pedro Lass Duschenes para o vão central preserva a arquitetura original do Mercado Público de Florianópolis

POR: VALENTINA FIGUEROLA FOTOS: FELIPE RUSSO

Edição 274 - Janeiro/2017

A nova cobertura do vão central do Mercado Público de Florianópolis, SC, foi projetada pelos arquitetos Gustavo Correia Utrabo e Pedro Lass Duschenes para interferir minimamente no conjunto arquitetônico original, tombado como patrimônio cultural municipal em 1984. Sustentada por apenas duas colunas metálicas, a cobertura de duplo balanço, elevada nas extremidades, protege os usuários da chuva e do sol intenso sem bloquear a vista das fachadas internas do mercado. Em vez de telhas, foram empregadas membranas opacas brancas de poliéster, que se retraem em momentos oportunos, como em noites estreladas ou quando o clima está agradável.
O projeto de Utrabo e Duschenes foi o grande vencedor do concurso nacional do vão central do Mercado Público de Florianópolis, promovido em 2013 pelo Instituto de Planejamento Urbano (Ipuf), em parceria com o Instituto dos Arquitetos do Brasil de Santa Catarina (IAB-SC). A pouca interferência do elemento no mercado foi um dos aspectos enaltecidos pelo júri, que também elogiou o sistema de retração das membranas, que garante diversos graus de luminosidade e conforto térmico.
Para os arquitetos, um dos maiores desafios do projeto foi justamente a idealização da cobertura retrátil de aproximadamente 1.000 m², que deveria ser de baixo custo e manutenção. "O desenho da estrutura precisaria resolver de uma vez só questões como o sistema de retração, com abertura do vão central, a coleta de águas pluviais, além de proporcionar temperaturas agradáveis para os usuários em dias de forte calor", explicam os autores do projeto.
Outro grande desafio enfrentado pela dupla foi criar uma cobertura com linguagem contemporânea que respeitasse os conceitos e as características da construção original, de influência eclética, erguida em duas etapas. A primeira delas foi em 1898, com a construção da Ala Norte. Em 1928, na segunda etapa, foi construída a Ala Sul sobre um aterro, além das torres e pontes, resultando na configuração do vão central. "É no mercado que a população se encontra para comprar peixes, ver os amigos ou simplesmente é o trajeto diário de quem chega por transporte público para trabalhar no centro da cidade", afirmam os arquitetos.
Implantadas no eixo longitudinal do vão central, a uma distância de 36 metros uma da outra, as duas colunas metálicas sustentam a grande viga metálica de 57,4 metros que também atua como calha, já que por ela escoa a água pluvial coletada na cobertura. Transversais à viga-calha, as costelas, com 8,35 metros de balanço, ultrapassam em 1,5 metro as fachadas internas da antiga edificação para barrar a chuva e emoldurar a vista do entorno.
SIMPLES E DE BAIXA MANUTENÇÃO
Plissadas às barras metálicas que configuram linhas paralelas à grande viga-calha, as lonas translúcidas de poliéster se retraem em direção às extremidades da cobertura graças aos trilhos laterais que ficam nas costelas (vigas transversais em balanço). Cada barra que suporta a membrana corre sobre dois trilhos laterais. Presos às barras, cabos de aço estão ligados a um motor que aciona o mecanismo que abre e fecha a cobertura. O motor, por sua vez, é acionado por um sistema de automação que monitora o clima para abrir ou fechar a cobertura. Após a abertura, cada pano leva cerca de 10 segundos para abrir e 10 segundos para fechar. Podem ser movimentados em conjunto ou individualmente, por meio de um tablet ou de um quadro de interruptores instalado na administração do mercado.
Sócios do escritório Aleph Zero, fundado em 2012, os arquitetos contam que o projeto da cobertura foi a primeira oportunidade que tiveram de intervir em um edifício tão importante quanto o Mercado Público de Florianópolis. A obra deu visibilidade ao escritório, antes conhecido pela realização de instalações artísticas como o A-TRA-VÉS e o [DES]dobrar Memorial, ambas em Curitiba, PR. "O que nos atrai nos projetos, mais do que o programa ou a escala, é o que eles podem adicionar na vida das pessoas. E esta adição não está simplesmente conectada ao conforto que a arquitetura pode propiciar, mas a uma provocação reflexiva sobre a natureza das coisas", finalizam os autores do projeto.

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