sexta-feira, 28 de abril de 2017

Fachadas unitizadas completam 15 anos no Brasil e se consolidam como solução otimizada de fechamento

Tecnologia de fixação, vidros e dispositivos de sombreamento inéditos dão fôlego ao sistema para equacionar beleza e conforto térmico em edifícios

Dirceu Neto
Revista Téchne - Edição 241 - Abril/2017

Tishman Speyer
Inovação no Faria Lima 3500: o projeto assinado pelo escritório KOM Arquitetura possui planos inclinados que formam um tronco de pirâmide invertido, com recortes assimétricos, características que representaram um desafio na aplicação do sistema unitizado
Já faz 15 anos que o edifício-sede do BankBoston foi inaugurado em São Paulo, trazendo para o país a tecnologia norte-americana das fachadas unitizadas. De lá para cá, o sistema que utiliza painéis modulares estruturados com perfis de alumínio e fechados com vidro tem se tornado tendência em obras de edifícios comerciais e corporativos. As vantagens são diversas, desde a alta eficiência e desempenho, até velocidade na aplicação.
No sistema unitizado, a confecção de cada um dos quadros que vai compor a fachada é realizada em módulos maiores, com medidas exatas para serem fixados de uma laje a outra. Além disso, esses módulos são montados em indústrias e já chegam prontos para a instalação na obra, o que favorece a agilidade da montagem. "Você ganha em velocidade porque pode produzir todos esses painéis antes numa fábrica, que é uma condição melhor do que um canteiro de obras. Isso confere também uma melhoria de qualidade", explica Crescêncio Petrucci Jr., consultor de fachadas e esquadrias.
Em termos de prazo, é possível começar a instalação da fachada unitizada de um prédio quando a obra está na quinta laje, por exemplo. Isso porque os módulos são encaixados um no outro, pois têm uma coluna desmembrada no sistema macho-fêmea, e o prédio é preenchido de baixo para cima. "Aumenta a velocidade, aumenta a precisão de trabalho e, por isso mesmo, ocasiona menos custos", afirma Igor Alvim, diretor técnico da QMD Consultoria e Projetos em Esquadrias.
Tishman Speyer
Detalhe do encontro entre os planos assimétricos da fachada. Parametrização da arquitetura é desafio para os fechamentos unitizados
Com a fachada executada ao mesmo tempo que a estrutura, é possível iniciar as instalações elétricas, hidráulicas, de ar-condicionado e acabamentos nos andares inferiores, onde os módulos da fachada já foram instalados. "Nos Estados Unidos, esse sistema foi estabelecido para você já começar a pôr o prédio para funcionar, independentemente de ele estar pronto", explica Antonio Cardoso, sócio da AC&D Consultoria em Alumínio, que ajudou a implantar o sistema no Brasil.
Tudo começou em 2002, quando o projeto da Kawneer (empresa norte-americana subsidiária da Alcoa) do edifício-sede do Bank Boston foi inaugurado em São Paulo. A fachada unitizada do empreendimento marcou o começo de uma nova era para a indústria da construção civil no Brasil. Em seguida, esse conhecimento técnico foi trazido ao país por meio da área de Desenvolvimento da Alcoa, que era gerida pelo hoje consultor Antonio Cardoso. Daí em diante, outras empresas apostaram no sistema que se difundiu em edifícios comerciais.
Antes da chegada do Bank Boston, o que havia de mais interessante em termos de fachadas era a do tipo cortina conhecida como sistema stick. Nela, há uma malha estrutural formada por colunas e travessas que ficam visíveis internamente. Sobre essa estrutura, são colocados os quadros de alumínios e, em seguida, os vidros. Dessa forma, é utilizado um quadro para cada vidro.
O sistema das fachadas unitizadas inverteu a ordem. As indústrias passaram a fabricar módulos completos, já com os perfis de alumínio e vidros devidamente colados com silicone estrutural na esquadria. Mas a principal diferença e que causou a mudança definitiva no mercado se deu no sistema de montagem. "No stick, você tem de montar em partes: primeiro a estrutura, depois coloca quadro a quadro, painel por painel de vidro e depois que é feita a vedação. No sistema unitizado, o módulo já chega pronto", afirma Crescêncio Petrucci Jr.
A evolução nas fachadas confere melhor segurança aos trabalhadores envolvidos, principalmente porque os andaimes suspensos (ou balancins) tornaram-se desnecessários, uma vez que nas fachadas unitizadas toda a montagem é feita pelo lado interno, no apoio da laje. "No sistema stick era preciso pegar um andaime, vir correndo de cima para baixo nas lajes do lado externo do prédio para poder trabalhar", diz Antonio Cardoso, que alerta para o rigor das medições prévias e acertos de prumadas envolvidos no sistema stick.

Divulgação
New Worker Tower, obra da Tecnisa em Alphaville, São Paulo. A torre de 102 m de altura tem sistema de fachada unitizada cortina
Com tantas vantagens em relação a outros sistemas, as fachadas unitizadas passaram a ser o mais adotado em diversas empresas. Na Tishman Speyer, por exemplo, 100% das obras utilizam as fachadas unitizadas. "O principal fato da escolha é que a produtividade é muito grande", afirma Luiz Henrique Ceotto, diretor administrativo de Construção e Design.
Em janeiro de 2014, a empresa lançou um empreendimento que ficaria marcado na evolução das fachadas unitizadas no país: o Edifício Faria Lima 3500. O projeto, assinado pelo escritório KOM Arquitetura, possui planos inclinados que formam um tronco de pirâmide invertido, com recortes assimétricos, características que representaram um desafio na aplicação do sistema unitizado.
"A inclinação é a mesma dos dois lados. Mas, como há diversos planos, criou-se diferentes detalhes de encontros entre as fachadas. O principal detalhe foi ter um bom desenvolvimento do projeto, porque esses encontros geraram a necessidade de vários perfis especiais de alumínio", explica Alfredo Pereira, diretor sênior de Construção e Design da Tishman Speyer.
Conforto térmico e acústico
O principal elemento que pode influenciar no conforto térmico de um empreendimento com o sistema unitizado é o vidro. Segundo Thiago Nascimento, proprietário do Grupo Paris Vidros e Alumínios, o vidro mais utilizado para esse tipo de projeto é o laminado refletivo, que proporciona segurança, já que se for quebrado ele é intransponível (até um certo limite de carga). "Geralmente, em fachadas unitizadas de prédios de alto padrão, são usados também os vidros reflexivos low, que são de alto grau de eficiência energética, que barram o calor provocado pelo sol, porém entra mais luz dentro do empreendimento", explica Nascimento.
Divulgação
Cortina de fachada unitizada durante fase de instalação no New Worker Tower, da Tecnisa
No entanto, ele destaca que "a melhor solução para o conforto térmico e acústico é o vidro insulado (duplo), por causa da camada de vidro que se forma associada a câmara de ar, barra muitos decibéis que passariam para o interior do empreendimento". Nesse modelo, há uma camada de vidro laminado, uma câmara de ar e outra camada de vidro.
No caso do Faria Lima 3500, foi instalado um vidro do tipo laminado de controle solar prata 12 mm - GA 128 C, da GlassecViracon, com transmissão luminosa de 35%, fator solar de 39% e coeficiente de sombra de 0,45. "A especificação do vidro foi toda pensada para a gente conseguir uma certificação de sustentabilidade Leed Gold pre-certified for Core & Shell", afirma Henrique Ceotto, da Tishman Speyer.
Os perfis das esquadrias também influenciam o comportamento térmico e acústico. A utilização de um perfil de alumínio composto de duas partes (face interna e externa) e separado por uma peça plástica chamada thermal break é uma boa opção para melhor conforto térmico, pois o plástico neutraliza a alta condutividade térmica do alumínio.
Outra possibilidade é agregar os sistemas de brises à fachada, como foi muito utilizado, por exemplo, nas obras projetadas por Oscar Niemeyer. "Colocava-se os brises na horizontal ou até mesmo na vertical e funcionavam como um dispositivo de conforto térmico. Só que naquela época os vidros não tinham a capacidade que têm hoje", avalia Antonio Cardoso. Os perfis com pintura eletroestática a pó de poliéster garantem uma excelente resistência aos raios ultravioleta.
Tishman Speyer
Para o Faria Lima 3500, o vidro usado tem espessura de 12 mm com transmissão luminosa de 35%
FICHA TÉCNICA
Faria Lima 3500
Localidade: Av. Brigadeiro Faria Lima, 3.500 - São Paulo (SP)
Tipo de utilização: comercial
Área construída: 45.895 m²
Construtora: Hochtief do Brasil S/A
Arquitetura: KOM Arquitetura
Projetista de fachada: Iba/Vidaris (Israel Berger and Associates, em NY)
Sistemista de fachada: Schüco do Brasil Ltda
Fabricante de fachada: Artalum - Artes em Alumínio Ltda.
Fabricante dos vidros: GlassecViracon
Inclinação das fachadas: 75 graus com a horizontal
Dimensão dos painéis: 2,50 m (largura) x 4,10 m (altura)
Acabamento dos perfis: Anodização na cor natural fosco, classe A-18
Planejamento e execução
Para uma correta execução de um sistema unitizado de fachadas, é necessário, primeiramente, o desenvolvimento de um projeto bem detalhado, que envolva uma integração entre várias disciplinas, conforme explica Petrucci. "Normalmente, tem de haver uma interação com o projetista de esquadrias ou um especialista, porque um arquiteto muitas vezes desenvolve uma modulação ou um projeto e vários fatores têm que ser discutidos", diz o consultor.
Tishman Speyer
Devem ser analisados que tipo de adequação é importante fazer no projeto para que o empreendimento consiga receber uma fachada unitizada e também questões de logística de montagem. "Muitas vezes a gente propõe repensar a modulação, fazendo com que a divisão da fachada não fique no eixo de um pilar de concreto, mas nas laterais, porque aí eu consigo fazer tudo isso por dentro", afirma Petrucci.
Com o projeto entregue, o fabricante deve implantar as fachadas unitizadas em duas etapas: primeiro são estabelecidas as ancoragens e, em seguida, os módulos são instalados. O processo envolve pouca mão de obra, uma vez que os módulos já estão prontos. No caso do Faria Lima 3500, foram três equipes, cada uma com quatro funcionários.
Em relação à ancoragem, existem a química e a mecânica, conforme explica Wesley Oliveira, engenheiro de aplicação da Âncora, empresa especializada em sistemas de fixação. A ancoragem química é um sistema de fixação composto de resina, haste roscada, camisa e vergalhão, que pode ser aplicada em concreto ou alvenaria. "Há um produto de componentes que a gente chama de mistura injetável. Então, é feita a perfuração do concreto, o procedimento de limpeza, que é super importante, e esse chumbador químico é injetado no furo", explica Oliveira.
Esse tipo de ancoragem é utilizado principalmente quando os módulos demandam uma resistência maior. De acordo com Oliveira, "muitos projetistas acabam direcionando para ancoragem química quando há painéis muito grandes. Daí, se consegue um desempenho maior na fixação". A principal vantagem do sistema é a versatilidade, pois pode ser aplicado em cargas médias e pesadas, estáticas e dinâmicas.
Na ancoragem mecânica, é utilizado um chumbador mecânico com a finalidade de fixar os componentes nos materiais-base. Podem ser utilizados chumbadores de jaqueta e cone, que é um sistema em aço inox com alto desempenho em tração. Existe também o modelo ParaBolt, ou chumbador de presilha, que é um dos mais comuns. E há o sistema de parafuso de concreto, onde os filetes de rosca laminam o concreto.
Divulgação
Detalhe tridimensional da ancoragem da caixilharia do New Worker Tower
Para Crescêncio Petrucci Jr., a escolha do sistema de ancoragem é muito importante, pois é ele que vai absorver as possíveis variações de estrutura. "A solução de ancoragem do projeto tem de ser determinada numa combinação com a construtora, estabelecendo valores de tolerância de execução da estrutura. Porque, se a estrutura sofrer variações, seja de nível, seja prumo, é a ancoragem que vai absorver", afirma.
Com a ancoragem estabelecida, a sequência da montagem segue normalmente, com os módulos içados e colocados por encaixe em fileiras lado a lado, sempre começando de baixo para cima. Nesse caso, uma equipe de instaladores trabalha no andar de baixo e outra no andar de cima. Em condições normais, é possível instalar em média 25 células por dia.
Para conferir o nivelamento dos painéis, pode ser utilizado o controle topográfico. "O Faria Lima 3500, por exemplo, foi feito com topografia", afirma Alfredo Pereira, da Tishman Speyer. Atualmente, a empresa já emprega outras tecnologias, como o uso de um escâner tridimensional de precisão, para verificar se o posicionamento das ancoragens está correto. "Para usar o escâner, o ideal é fazer o projeto em plataforma BIM. Daí, quando escaneia-se o edifício, você compara com a maquete do projeto. Ao escanear, você sabe se está fazendo da maneira correta", explica Pereira.
Além disso, drones de fotografia em alta definição têm sido utilizados nas obras recentes da empresa, como o Pátio da Marítima, no Rio de Janeiro, com previsão de entrega para 2020. A tecnologia permite que o drone se aproxime e fotografe a até 3 m da fachada, o que confere uma análise detalhada do sistema, posteriormente quando o equipamento volta ao solo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário