terça-feira, 6 de junho de 2017

Arquitetura de escola em São Paulo foi pautada pela proposta pedagógica: a franca relação entre interior e exterior e a oferta de ambientes dinâmicos e estimulantes no coração do projeto

Por: aU

Carine Savietto

Edição 278 - Maio/2017

Como pensar arquitetonicamente uma escola que não deseja se prender a suas paredes e lousas? Partindo dessa reflexão, a educadora Gisela Wajskop delineou as bases do que seria o espaço ideal para abrigar a Escola do Bairro, um centro de educação infantil e fundamental I (do 1o ao 5o ano) norteado por um intenso diálogo de culturas - a familiar, a infantil, a local e a comunitária.
O local escolhido para acolher a instituição foi um simpático sobradinho de estilo eclético construído entre as décadas de 1940 e 1950, na Vila Mariana, em São Paulo. "Considerando que um ambiente guarda rastros que revelam como as pessoas ali viviam e se relacionavam, decidimos respeitar as marcas históricas do prédio, mantendo e recuperando muitos dos elementos originais. Para as crianças, é também uma forma de aprender com a vida real e a memória", conta Gisela. Coube ao arquiteto Gabriel Grinspum, do escritório Agrau, criar um projeto que adaptasse o imóvel às necessidades do uso escolar e, ao mesmo tempo, traduzisse em linguagem arquitetônica todos os detalhes da proposta pedagógica desenvolvida pela educadora.
FORMA E FUNÇÃO
A casa principal teve a fachada pintada de branco e algumas esquadrias refeitas de acordo com a proporção das aberturas originais, muitas das quais já haviam sido desconfiguradas. Internamente, os assoalhos de madeira foram recuperados e o layout ajustado ao programa da escola: o primeiro pavimento ganhou compartimentações de drywall para acolher secretaria, sala dos professores, cozinha e banheiros, além de uma aconchegante sala para os bebês. O segundo piso teve as paredes demolidas para a conexão de três ambientes, que deram origem a uma sala única.
Diversos anexos - erguidos ao longo dos anos nos fundos do terreno, sem nenhum planejamento - foram demolidos. No lugar dessas construções precárias, surgiu um novo pavilhão, que conjuga estrutura metálica, fechamento externo de blocos cerâmicos e cobertura de aço treliçada. A comunicação com a edificação existente é feita através de um pátio no segundo andar, onde se localiza o elevador que atende aos dois blocos.
Com sutil referência à Capela de Ronchamp, de Le Corbusier, a fachada cinza salpicada de pequenas janelinhas, constituídas de elementos pré-moldados de vidro fixo, marca a identidade visual do novo volume, que ainda ganhou piso cimentado no andar inferior e ladrilho hidráulico no superior. Mas a inspiração de maior peso é encontrada na arquitetura educacional de Richard Neutra, conhecido por suas escolas leves e fluidas, que subvertem a tradicional condição estática de uma sala de aula em nome de um processo educativo extremamente rico em experiências e em constante movimento.
Do desejo de valorizar a arquitetura brasileira também vieram muitas escolhas de projeto, como os janelões escancarados, as generosas varandas e os elementos vazados, que comparecem tanto no muro da fachada principal quanto no terraço superior.
INVESTIGAÇÃO E DESCOBERTA
Na Escola do Bairro, os espaços pedagógicos são flexíveis, adquirem funções múltiplas e, dialogando com os ideais de Neutra, possuem portas completamente envidraçadas e de correr, que garantem a máxima integração entre interior e exterior. No fundo do lote, as crianças encontram muito mais do que um pátio gramado: o jardim foi concebido para servir de palco para exercícios investigativos e exploratórios, além de estimular a relação com os quatro elementos - razão pela qual a área ao ar livre conta com forno de barro e espelho d'água com peixinhos, além de paisagismo pedagógico.
As crianças vão se apropriando dos espaços sem fazer muita distinção entre o que está "dentro" e o que está "fora": "Realizamos atividades para aguar as flores, construir rios na areia, fazer desenhos efêmeros de barro nas paredes de azulejo, rabiscar os vidros com giz líquido...", enumera Gisela Wajskop.
O mobiliário infantil, desenvolvido pela educadora em parceria com a arquiteta Camila Bianchi, da Maria Joaquina Marcenaria, também foi idealizado para estimular uma ampla gama de vivências. De compensado naval revestido de laminado melamínico, as peças são empilháveis e podem ser guardadas facilmente se a ideia for criar um grande espaço vazio no meio da sala. Além disso, ainda atuam como se fossem blocos de montar que, acrescidos de panos coloridos e outros acessórios, dão vida a divertidos espaços de brincar. Para as paredes, nada de cor: os ambientes são como telas em branco criadas especialmente para receber o vibrante colorido das crianças.

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